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Infraestrutura
Postado em 03/07/2016 - 02:19

Plantando Àgua no Velho Chico

                         Plantando Água no Velho Chico

 

A importância do apoio do Governo Federal à construção de Barraginhas - uma forma inteligente, sustentável e de baixo custo para armazenar água

                                                                                                                                                                                                                               José Marcos*

 

Embora o Brasil apresente um dos maiores potenciais hídricos do planeta, não estamos livres dos riscos da escassez deste tão valioso recurso natural: a água. A cada década que passa, fica mais evidente que os efeitos das mudanças climáticas afetam nossos recursos hídricos, e somos impactados na economia, na saúde e na qualidade de vida.

Há muito somos afetados pela sazonalidade da água das chuvas e percebemos cada vez mais leitos de rios que agonizam ora pela falta de água, ora por assoreamentos. Sem contar nossos lençóis freáticos e reservatórios, que minguam dia a dia.

Para solucionarmos esses problemas, uma alternativa viável é a construção de Barraginhas - um mecanismo sustentável, inteligente e de baixo custo de armazenamento de água, que aproveita os volumes das enxurradas próximas às pastagens, às lavouras, às beiras de estradas e ao longo de bacias hidrográficas.

O projeto de Barraginhas consiste basicamente em construir mini açudes nos locais onde ocorram enxurradas, no intuito de armazenar o volume pluviométrico.

Os reservatórios são construídos por retroescavadeiras a um custo mínimo. Além disso, o projeto promove a sustentabilidade ambiental, pois eleva-se o nível dos lençóis freáticos, são umidificadas as áreas produtivas e diminui-se a erosão e o assoreamento de córregos e rios. A técnica, que é milenar nas regiões desérticas do globo e vem sendo aperfeiçoada pela Embrapa.

A empreitada de se implantar Barraginhas vem obtendo resultados muitos significativos em locais próximos aos rios que compõe a bacia do rio São Francisco. Tal iniciativa tem sido abraçada por prefeituras, por produtores rurais, por pequenos fazendeiros e por ribeirinhos. No entanto, ainda carece em ser otimizada e apoiada pelo poder público.

Se na ficção da atual novela da Globo, “Velho Chico”, conta-se a saga familiar de gerações inteiras ligadas a um dos mais importantes cursos d'água do Brasil, que corre por Minas Gerais, pela Bahia, por Pernambuco, por Alagoas e por Sergipe, espera-se que, também no palpável e no real, a sociedade e principalmente o Governo Federal, apoiem projetos viáveis como o das Barraginhas.  

O Velho Chico, como carinhosamente é chamado o São Francisco, é um rio de integração nacional, onde estão sendo construídos canais para a transposição de suas águas, a fim de irrigar o semiárido nordestino. É obrigação do Governo Federal, através dos ministérios de Integração Nacional e Agricultura, devido à relevância incontestável daquelas águas, promover sua revitalização.

A popularização das Barraginhas há tempos vem sendo defendida por especialistas. “A construção de Barraginhas têm que fazer parte de um processo planejado e urgente para a recuperação do solo”, afirma o ex-ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli. Para ele, um governo sério destinaria recursos para a recuperação das florestas, lavouras e pecuária, tendo em vista a importância econômica para o Brasil, e incentivaria o uso consciente do solo, reforçando a lavoura e a pecuária. Segundo o ex-ministro, um programa bem dirigido recuperaria o cerrado em 3 ou 4 anos. “É necessário proteger os pontos de acesso da água ao lençol freático”, completou Alysson. Claramente o ex-ministro entende que quem deve tomar a frente e dirigir um projeto nacional de recuperação dos solos, é o governo federal.

Este tipo de iniciativa pode melhorar o cotidiano de pessoas que têm sua sorte e vida ligadas à água. Por isso, é importante plantar essa ideia, plantar aquela sementinha de consciência, pois “plantando água no Velho Chico” reforçaremos os recursos hídricos nacionais e garantiremos com toda a certeza o real significado da palavra sustentabilidade.

Em recente materia publicada pelo jornal O Globo, “Futuro de pouca água”, o jornalista Sérgio Matsuura reproduz frase do pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, José Almir Cirilo: “A Bacia do Rio São Francisco, onde vivem cerca de 14,3 milhões de pessoas, está agonizando.

Segundo Cirilo, é urgente a elaboração de projetos para racionalizar o uso das águas do São Francisco, com a aplicação de técnicas modernas de irrigação — algumas propriedades ainda usam a técnica de inundação, considerada dispendiosa —, educação da população sobre o consumo consciente e redução no desperdício dos sistemas de abastecimento, que muitas vezes ultrapassa 50%.

Faz-se necessário nos movimentarmos agora para garantirmos o sustento no futuro. A água não brota do solo, precisa ser plantada!

 

                                                                       * José Marcos Soares de Souza é advogado, produtor rural e presidente da Sociedade Mineira de Agricultura.